Viena, na intimidade de um Império

Viena, 22 de novembro de 2017

A programação de hoje incluía parte do complexo do Hofburgo. Um dia inteiro dedicado à História imperial da cidade. Começamos pela Escola Espanhola de Equitação, instituição tradicionalíssima que traz, digamos, um secular protocolo de adestramento clássico e manejo de cavalos. Os cavalos da Escola Espanhola de Equitação são da raça Lipizzaner, resultado do cruzamento de puros-sangue da Andaluzia importados pela dinastia Habsburgo no século XVIII com éguas mestiças de napolitanas e berberes.

O mais curioso é que os potrinhos Lipizzaner nascem pretos, pretinhos, e à medida em que vão crescendo, mudam de pelo e embranquecem. Na idade adulta, são alvos, bem brancos, sem quaisquer manchas.

Os cavalinhos fazem seus exercícios matinais diariamente, das 10 às 11 horas, na mesma arena onde acontecem os seus espetáculos noturnos (estes últimos, só em determinados dias da semana, a depender da temporada). A arena é coberta, suas paredes têm estilo clássico e lustres pendem do teto como se num salão de baile. Como se não bastasse tanto glamour, durante a requintada sessão de treinos os cavalos trotam e marcham ao som de música clássica. Como estávamos com o nosso Vienna Pass, tivemos livre acesso ao treino dos cavalos, que é, mesmo sendo a apresentação “extraoficial”, um espetáculo lindo e que vale muito a pena.

A Escola Espanhola de Equitação tem ainda um café e uma lojinha, onde vende-se tudo relacionado aos Lipizzaner, de livros a cavalinhos de pelúcia. Após o treino é possível visitar os estábulos, mas essa opção seria cobrada à parte, então demos seguimento ao roteiro. Atravessamos o pátio do Hofburgo e já do outro lado da “rua” avistamos a entrada dos museus Silver Collection, Sisi Museum e o Kaiser Apartments, todos inclusos no Vienna Pass.

Apartamentos do Kaiser - Sissi Museum - Silver Collection
Apartamentos do Kaiser – Sissi Museum – Silver Collection

O circuito é pré-determinado: pega-se o audioguide na recepção e começa-se pela coleção de prataria e louças do palácio. Ali estão reunidas peças mantidas pela dinastia Habsburgo, desde presentes de Maria Antonieta, já rainha da França, para seus irmãos, até louças com a efígie de golfinhos encomendada por Sissi para o seu palácio Acchileion, construído em Corfu, na Grécia, cujo tema era uma homenagem ao mítico herói Aquiles.

Findo o tour por esse rico acervo, sobe-se uma escada encarpetada em vermelho e chega-se a uma parte mais “escura” da exposição, propositalmente concebida em tons de carmim e azul marinho: é a ala dedicada à Imperatriz Elisabeth (ou Isabel, como preferem os ibéricos), conhecida como Sisi, ou Sissi em Português.

Silver Collection
Silver Collection

A mostra procura revelar a real personalidade e ânimo da imperatriz, desmistificando a visão galvanizada que o cinema consagrou na trilogia Sissi, do diretor Ernst Marischka, na qual a imortalizada Romy Schneider interpretou o papel principal.

A verdadeira imperatriz foi uma mulher muito peculiar, avessa ao rigor do protocolo da corte vienense. Como naqueles palácios não encontrava um lar, vivia de forma errante, sempre viajando. E a exposição é muito bem fundamentada ao exibir, seja através de imagens e acervo, seja através do minucioso texto narrado no audioguide, a sua faceta mais complexa. No ponto, o turista deve tirar suas próprias conclusões.

Quarto de dormir de Sissi
Quarto de dormir de Sissi
A Atormentada Vida da Imperatriz Isabel
A Atormentada Vida da Imperatriz Isabel

A imperatriz foi incompreendida em sua época. Nas palavras da escritora Alison Pataki, uma espécie de Lady Di de seu tempo. Os mais interessados devem buscar fontes confiáveis, tais como a excelente biografia escrita por Catalina de Habsburgo, sobrinha-neta de Sissi, intitulada “A Atormentada Vida da Imperatriz Isabel”. Sim, o acervo da exposição de objetos que lhe pertenceram é muito rico: vestidos, algumas joias, maletinhas, frasquinhos de perfume e outros cosméticos, escovas de cabelo, e sua máscara mortuária – única forma de se saber como era o seu rosto aos 61 anos: excessivamente vaidosa, a imperatriz, que foi uma das maiores beldades de seu tempo, não mais se deixou fotografar ou retratar após os trinta e poucos anos. Mas é fundamental ouvir o audiguide, que contem a narrativa de trechos de seu diário, de cartas, etc., dando significado infinitamente maior a cada peça exposta.

Sissi
Sissi

Finda a ala exclusivamente dedicada a Sissi, a exposição emenda já com os apartamentos do Kaiser. No caso, os traços mais viventes são os do período em que tais cômodos foram ocupados pelo imperador Francisco José, o esposo de Sissi, e também pela própria.

Escrivaninha de Franz
Escrivaninha de Franz

É possível ver o gabinete onde Franz despachava, cercado por imagens da mulher, filhos e netos. Sua cama, seus demais móveis de uso diário, tais como escrivaninhas, local onde eram servidas as refeições, etc.

Biblioteca Nacional de Viena
Biblioteca Nacional de Viena

Após esse mergulho pela intimidade do Hofburgo e seus ilustres ocupantes, seguimos para a Biblioteca Nacional de Viena, também adida ao palácio, cuja beleza interna é indescritível. Pareceu-nos que não é possível manusear os milhares de livros que as estantes guardam. É uma biblioteca-museu, por assim dizer, que mantém exposições sazonais. Por óbvio, estava em cartaz uma mostra dedicada ao centenário de morte do nosso tão mencionado Franz. Fotos, cartas, despachos, muita coisa interessante ali exposta. Inclusive cartas e fotos trocadas pelo solitário imperador com a atriz Catharina Schratt, que lhe serviu como “companhia” (ninguém sabe a exata profundidade desse relacionamento), tudo com o aval de Sissi, que estava quase sempre ausente da corte.

Biblioteca Nacional de Viena
Biblioteca Nacional de Viena

Da biblioteca, seguimos para a rua Kohlmarkt, e aproveitamos para almoçar na rede de fast food de frutos do mar Nordsee. Os preços eram ótimos, assim como o sabor dos sanduíches. É possível escolher também peixes, inclusive generosas postas de salmão, e o respectivo acompanhamento. Optamos pelos sanduíches com peixe empanado e refrigerante. O almoço nos custou 12 euros, 6 euros para cada um.

Também ali perto da rua Graben, visitamos a Catedral de Santo Estêvão, outro cartão-postal da cidade, com seu telhado em mosaicos coloridos. Parada obrigatória para ver desenhada em seu telhado a águia de duas cabeças, símbolo da monarquia dual. Ao seu lado, havia uma loja de chocolates, a Manner, que estava lotada! Entramos e compramos uns bombons para comermos no caminho para a casa de Mozart, próxima atração.

Rua Graben, Catedral de Santo Estêvão
Rua Graben com rua Rotenturmstrasse, Catedral de Santo Estêvão ao fundo

A Mozart Haus fica cerca de meio quarteirão atrás da Santo Estêvão, e tudo é muito bem sinalizado, com placas indicando o caminho. Basta entrar em um beco à direita e à esquerda, e pronto. Na verdade esse foi o apartamento onde Amadeus Wolfgang Mozart morou em seus anos mais abastados.

Mozart Haus
Mozart Haus

O acervo é mais de ouvir do que de se ver. Há telas ilustrando a Viena de sua época (século XVIII). Há partituras originais de suas composições, como Le Figaro. Está exposta uma casaca rebordada pertencente ao músico. A mobília não é original, mas sim uma tentativa de recompor, de forma imaginária, o ambiente naquela moradia, como seria ordinariamente uma casa naquela época. Mesmo assim, as peças de mobília são escassas. Contudo, a visita é válida, e o audioguide revela histórias interessantes, com trechos em que o narrador dá voz a Mozart.

Partitura original de "Le Figaro", de Mozart
Partitura original de “Le Figaro”, de Mozart

A lojinha igualmente oferece itens muito bons, de papelaria a discos. Viena efetivamente foi e é a capital mundial da música. Por toda parte ouve-se o som de alguma melodia clássica, inclusive nas estações do metrô (algumas delas, como a Karlplatz Opera, têm som ambiente). Nas ruas, é muito comum se deparar com instrumentistas portando seus estojos nas costas. É muito inspirador!

Famosa roda-gigante de Viena, no bairro Prater - Wiener Riesenrad
Famosa roda-gigante de Viena, no bairro Prater – Wiener Riesenrad

Como ainda nos sobrava algum tempo, pegamos o metrô na estação Stephanplatz e fomos até a estação Praterstern, no bairro Prater, em frente da qual fica um jardim para caminhadas e exercícios e o parque de diversões onde está em funcionamento a famosa roda-gigante de Viena – a Wiener Riesenrad, cujas cabines são vagões de trem. Aquele parque sediou os stands da Exposição Universal de 1873, e a roda-gigante foi construída em 1897, para o jubileu de ouro do reinado de Francisco José. Foi destruída durante a Segunda Guerra, e reerguida já no ano de 1947.

Roda Gigante do Prater
Roda Gigante do Prater

Finalizando o roteiro desse dia que rendeu tanta informação, da estação Praterstern pegamos o metrô para a estação Schwedenplatz, para jantar no restaurante Motto Am Fluss (algo como “O Leme no Rio”, em tradução do alemão). A ocasião pedia algo especial: naquele dia fizemos 2 anos de casados e a Letícia Diethelm do blog Viva Viena havia em um de seus ótimos posts indicado esse restaurante.

Vista do Topo da Roda Gigante, de parte do Prater
Vista do Topo da Roda Gigante, de parte do Prater

É uma construção em formato de navio que fica literalmente suspensa às margens do canal do Danúbio no Franz Joseph Kai (cais Francisco José). Jantamos pratos de um maravilhoso schnitzel (daqueles que quase transbordam o prato), acompanhado de salada de batatas e folhas, e geleia de amora. Esse jantar, servido com vinho branco, custou 80 euros. Valeu a pena e repetiríamos com certeza.

Nosso Vienna Pass nos valeu para a entrada em todas as atrações citadas neste roteiro, inclusive para subir na roda-gigante.

Por Letícia com texto e publicação de Cristiano, do casal de mineiros de Belo Horizonte, que acredita que viajar é um jeito divertido de conhecer outras culturas, com muita fotografia, mapas riscados, planos feitos, além de vários contos e diários conquistados e compartilhados.

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