Viena, na arte e na guerra

Viena, 23 de novembro de 2017

Se o dia de ontem foi dedicado à história do longevo imperador Francisco José e sua esposa Sissi, o dia de hoje nos levou a lugares em que pudemos estar mais próximos de detalhes da história do igualmente famoso Franz Ferdinand.

Palácio Belvedere, Viena
Palácio Belvedere, Viena

A programação começou pelo Palácio Belvedere, linda construção barroca em que habitaram tanto o militar Eugênio de Savoy (ou de Saboia, quem ordenou a construção entre 1720/1723), quanto o herdeiro do império Habsburgo no século XX, Francisco Ferdinando, sobrinho do imperador Francisco José. Com a morte de Rodolfo, o “kronprinz”, o único filho homem de Francisco José, a coroa passaria a Francisco Ferdinando.

Palácio Belvedere, Viena
Palácio Belvedere, Viena

Ocorre que, para enorme desgosto do metódico tio Franz, o sobrinho Franz Ferdinand quis casar-se com uma dama de companhia (depois elevada ao título de condessa), Sophia Chotek. Lembrando que nas monarquias, as tais damas de companhia eram não raro princesas de menor estirpe, vindas da parentela mais afastada dos reis e da possibilidade de herdar o trono. Essas moças e senhoras aceitavam de bom grado, como honraria, a posição de dama de uma senhora de maior pedigree, como a rainha ou imperatriz e suas filhas arquiduquesas.

Gustav Klimt, O Beijo
Gustav Klimt, O Beijo
Gustav Klimt em réplica de cera no Madame Tussauds
Gustav Klimt em réplica de cera no Madame Tussauds
Napoleão Bonaparte por Jacques Louis David
Napoleão Bonaparte por Jacques Louis David

Voltando ao palácio Belvedere, hoje convertido em museu, este possui acervo riquíssimo em arte, especialmente pinturas, indo de Monet a Renoir, passando por mestres do expressionismo e do Romantismo, como Jacques Louis David (lá está a icônica pintura que retrata Napoleão Bonaparte sobre o cavalo).

Mas o seu carro-chefe é com certeza o acervo de pinturas do mestre Gustav Klimt. Entre elas, o retrato de Fritza Riedler, Judith, Sonja Knips, Adão e Eva, O Beijo. Repare nos tons de prata e dourado que Klimt utiliza em suas obras primas: a iluminação das galerias os realça e explora seu brilho. Não é permitido fotografar as pinturas. Por isso, o staff do museu montou uma réplica de O Beijo que fica bem no saguão de entrada do Upper Belvedere (o palácio principal), onde é permitido fotografar e fazer selfies.

Lower Belvedere, ou Belvedere de baixo
Lower Belvedere, ou Belvedere de baixo

Descendo até o final do jardim do palácio, chega-se ao Lower Belvedere, ou Belvedere de baixo, em tradução.

É um pavilhão no mesmo estilo do palácio principal, onde há outras mostras e exposições.

No dia em que estivemos lá, havia arte moderna e uma exposição sobre arte medieval, mas esta última estava fechada naquele horário.  Embora por dentro o Lower Belvedere tenha alguns salões maravilhosos, com paredes douradas e muito trabalhadas, acredito que a descida até ele só compense se o viajante estiver com bastante tempo disponível. Isto porque entre o Upper e o Lower Belvederes, há um jardim de cerca de 500 metros de comprimento.

Já era hora do almoço, e como havia feira de Natal no jardim frontal do Belvedere, compramos dois enormes hot dogs com bratwurst e uma garrafinha de suco de maçã, e comemos ali mesmo nos banquinhos do jardim. O lanche todo a 14 Euros.

Museu de História da Guerra de Viena
Museu de História da Guerra de Viena

Feita a visita e devidamente alimentados, seguimos a pé para o Museu de História da Guerra, mantido em um edifício em formato quadrilátero, que já havia servido de fortaleza para a cidade de Viena.

Contrastando com a frugalidade externa da construção, seu interior é de deslumbrar.

Nas colunas e pilastras do saguão de acesso estão esculpidos em corpo inteiro os mais notáveis gênios austríacos da arte da guerra, entre imperadores e comandantes militares.

Entre toda sorte de adagas, pistolas, fuzis, arcabuzes, baionetas, flâmulas e uniformes, estão objetos (sempre de teor militar) que pertenceram a Maximiliano, o desventurado irmão de Francisco José que tornou-se, por influência de Napoleão III, imperador do México entre 1864/1867, numa empreitada que lhe custou a vida. (Maximilano foi brutalmente assassinado  por revolucionários locais, botando um fim nas ambições austríacas de estender seu império para as Américas. Sua máscara mortuária faz parte do acervo do museu).

Museu de História da Guerra de Viena
Museu de História da Guerra de Viena

Outra vitrine rende loas ao último imperador Habsburgo, Carlos I, que entre 1916 e 1918 conduziu o império Austro-Húngaro.  É possível ver uniformes e armas que este empunhou. Mais tarde, por sua posição pacifista na 1ª Guerra Mundial, Carlos foi beatificado pela Igreja Católica, ainda no pontificado de João Paulo II.

Museu de História da Guerra de Viena
Museu de História da Guerra de Viena

Mas o ponto alto da visita é a ala dedicada à 1ª Guerra Mundial. 

Carro em que Francisco Ferdinando e sua esposa Sophia foram baleados em Sarajevo
Carro em que Francisco Ferdinando e sua esposa Sophia foram baleados em Sarajevo

É esse o rico museu que tem a sorte de ter em seu acervo nada menos do que o carro em que Francisco Ferdinando e sua esposa Sophia foram baleados em Sarajevo. Como se não bastasse, no mesmo salão estão o uniforme completo que Franz Ferdinand usava naquele dia: sapatos, luvas, calça, barretina e o paletó, recortado para os primeiros socorros e ainda manchado de sangue. Tudo isso disposto acima do divã onde ele foi deitado e onde enfim expirou. Numa redoma ao lado, um pedaço da renda do vestido de Sophia e o ramalhete de flores que ela portava.

Uniforme completo que Franz Ferdinand usava naquele dia
Uniforme completo que Franz Ferdinand usava naquele dia

O casal, que estava em missão em Sarajevo para acompanhar manobras militares, fora morto em 28 de julho de 1914 pelo anarquista sérvio Gavrilo Princip, membro da organização terrorista Mão Negra.

O fato gerou grande indisposição entre Sérvia/Bósnia e Áustria, que lhe emitiu um ultimato como represália. E a partir desse fato, mas não somente por isso, começou o conflito mais sangrento do século XX.

Nem é preciso dizer que tanto o Belvedere quanto o Museu de História Militar mantinham, na data de nossa visita, sessões em homenagem ao centenário de falecimento de Francisco José. No primeiro, as inúmeras pinturas nas quais o imperador fora retratado, e alguns bustos em mármore, assim como a incrível tela de Winterhalter em que Sissi fora retratada usando as famosas estrelas no cabelo.

Do Museu de História Militar caminhamos até a Hauptbanhof, onde pegamos o metrô até a estação Prater Stern. É que tínhamos direito a uma visita ao Madame Tussauds, que fica dentro do parque de diversões que funciona no Prater. No dia anterior, em que fomos ao parque para andar na Wiener Riesenrad (vide post anterior), o museu de cera já estava fechado.

Além de celebridades internacionais esculpidas em cera em qualquer unidade do Madame Tussauds mundo afora, o museu de Viena tem expostos os maiores símbolos nacionais, como Sissi e Franz, logo na entrada, e Mozart, Johan Strauss (o filho), Gustav Klimt, Dr. Freud…  A atriz austríaca Romy Schneider também marca presença, obviamente (ela interpretou Sissi no cinema na década de 50, na trilogia do diretor Ernst Marischka).

Sissi de cera no Madame Tussauds
Sissi de cera no Madame Tussauds

No parque de diversões estava funcionando uma feirinha de natal. Aproveitamos para recompor as energias e tomamos um vinho quente e um goulash maravilhoso servido em uma panhoca de pão preto. Sopinha divina – parecia que fui ligada em uma tomada e minha bateria se recarregou imediatamente! Deve ser por causa dos condimentos e temperos fortes tradicionais dos goulashes…

Como em todas as feirinhas de Natal em Viena, o vinho quente é servido em uma canequinha de louça. Você paga por ela adiantado, 4 euros, ao se servido do vinho. Depois, se não quiser ficar com ela, volta à barraca e a devolve, sendo reembolsado em 2 euros. É claro que ficamos com a nossa xícara, e nos arrependemos de não ter ficado com a da feira da Rathaus, que era em formato de botinha.

Albertina, Viena
Albertina, Viena
Albertina, Viena
Albertina, Viena

Depois, voltamos para o centro histórico, para visitar a Galeria Albertina, palacete onde viveram, ainda no século XVIII, Maria Cristina, arquiduquesa da Áustria e, conforme diz a lenda, a filha predileta da imperatriz Maria Teresa, e seu marido, Alberto de Saxe-Teschen. O duque Alberto recebeu um enorme acervo de artes gráficas, e cuidou em ampliá-lo por toda a sua vida. Assim, o Albertina conta hoje com grandes nomes da pintura, como Monet, Picasso, Rubens, Rembrandt, Van Dyck, além de aposentos ricamente decorados e mobiliados com peças originais. É permitido fotografar tudo, exceto as telas de Van Gogh.

Albertina, Viena
Albertina, Viena
Albertina, Viena - Andy Warhol
Albertina, Viena – Andy Warhol

No térreo havia uma exposição denominada Film Still, mostrando em fotografia os bastidores de clássicos do cinema, como Metropolis, Nosferatu, Janela Indiscreta e outros. A Galeria Albertina funciona até as 21 horas nas quartas-feiras (a conferir dias e horários conforme estação e temporada), com grande movimento. Vale a pena a visita.

Albertina, Viena - Foto Original, Nosferatu
Albertina, Viena – Foto Original, Nosferatu

Jantamos no Café de L’Europe, que coloca mesinhas na rua Graben. Como entre as mesas tinha torres de aquecimento aqui e ali, foi possível comer e tolerar bem o frio, sem esfriar o prato. Pedimos um risoto de cogumelos para um, e um bife de carne com salada para o outro. O jantar, com bebidas, custou 40 euros. Recomendamos o restaurante: preços justos e comida diversificada, de espaguete a schnitzel.

Por Letícia com texto e publicação de Cristiano, do casal de mineiros de Belo Horizonte, que acredita que viajar é um jeito divertido de conhecer outras culturas, com muita fotografia, mapas riscados, planos feitos, além de vários contos e diários conquistados e compartilhados.

:: E-mail :: contato@cidadesdeoutrora.com :: Instagran: @cidadesdeoutrora

:: Os comentários publicados são de responsabilidade integral de seus autores e não representam a opinião deste blog. Observando que não são permitidas mensagens com propagandas ou conteúdos ofensivos e desrespeitosos. ::

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s