Fazendo uma Conferência em Potsdam

Berlim, 29 de novembro de 2016.

Com o dia frio e de céu sem nuvens que se apresentou, decidimos ir a Potsdam, a antiga “capital” ou centro de poder da Prússia, e hoje capital do estado de Brandemburgo – passeio que demanda tempo firme. Compramos o ticket de metrô com validade para ir e vir um dia inteiro, o tageskarte, compreendendo as zonas A, B e C, no qual incluída Potsdam, pagando 8 euros por pessoa.

O trajeto de trem é feito em 46 minutos, e conta com muitas paradas, já que Potsdam é praticamente uma região metropolitana de Berlim. Embarcamos na estação Alexanderplatz, a mais próxima de nosso hotel, mas também é possível sair da Hauptbahnhof, da estação Friedrichstrasse ou da famosa estação Zoo, Zoologischer Garten (partindo dessas estações, a viagem leva uns minutinhos a menos). Os trens passam de 10 em 10 minutos.

Hauptbahnhof, Potsdam, Alemanha

A estação principal de Potsdam é muito bonita e moderna, conta com lojas e supermercado, o que nos permitiu abastecer a mochila com água e lanche (6 euros). Ali mesmo decidimos comprar, a 18 euros cada, tickets de uma excursão em microônibus e com guia em alemão e inglês que percorre os locais de destaque na cidade, visitando inclusive os deslumbrantes palácios que serviram aos diversos Kaisers da Prússia, no complexo do Parque Real de Sanssouci. Essa área de parques e palácios hoje compreende o campus da Universidade de Potsdam, mundialmente conceituada.

O tour começou na hora marcada e reunia passageiros de diversas idades e nacionalidades. Um grupo de jovens mocinhas tagarelando em espanhol altíssimo o tempo todo nos levou a ficar imaginando se seriam elas nossas colegas latino-americanas ou espanholas mesmo.

Após percorrer alguns bairros da cidade, como o Hollandisches Viertel, (construído para incentivar a imigração holandesa), adentramos a área imperial propriamente dita.

Descemos no Neue Palais, que na verdade é bipartido por uma avenida larga. O Neue Palais foi construído sob ordens de Frederico II, conhecido como Frederico o Grande, entre 1763 e 1769. O Kaiser encomendou a construção em estilo barroco e rococó, já caindo em desuso na época, ao invés de optar pelo estilo neoclássico, que era o “da moda”.

Neue Palais, Potsdam
Neue Palais, Potsdam

Num dos magníficos palácios (o da esquerda), ficava acomodado o staff real, a cozinha e tudo o mais. O outro, da direita, hospedava a família imperial e os valetes e damas mais próximos. Uma estrutura subterrânea foi concebida pelo Kaiser Guilherme II, já no final do século XIX, para que as refeições pudessem chegar aos aposentos reais sem esfriar, e a criadagem circular entre os dois prédios sem sujeitar-se às intempéries.

Infelizmente não o visitamos por dentro, pois a excursão tinha de seguir. Era cerca de meio-dia e o chão gramado do parque ainda estava coberto de uma fina mas persistente camada cristalizada de gelo, que reluzia em cor de prata sob o sol.

Palácio Sanssouci,Potsdam
Palácio Sanssouci,Potsdam

Passando por mais construções, como a sede do correio real de Potsdam, e por muita beleza natural como laranjais, a próxima parada aconteceu no Palácio Sanssouci, que em francês quer dizer “sem preocupações”.

Esse palácio foi erguido antes mesmo do Neue Palais, entre 1745 e 1747, pelo mesmo Frederico II, O Grande, que desejava uma residência de verão para desanuviar da corte e de sua esposa Isabel Cristina, com quem não se dava tão bem – dizem os biógrafos. Ela permaneceu residindo no Schloss Charlottenburg, em Berlim, construído para a avó de Frederico II quando esta era a rainha, Sophie Charlotte de Hanover.

Reafirmando o propósito de refúgio bucólico do Schloss Sanssouci, Frederico II mandou cultivar um vinhedo nos sete níveis dos terraços dos jardins do palácio, o que foi mantido desde então até os tempos presentes. Embora fosse outono-inverno, pudemos ver os cachos de uva remanescentes da última safra ainda pendurados e bastante queimados pela geada.

Numa lateral do jardim, placas de cimento são túmulos dos 11 cães favoritos de Frederico, o Grande. Ao lado desses, uma outra placa de cimento chama a atenção. Nela estão dispostas 4 batatas e uma rosa. Sim, batatas, os tubérculos! Uma sepultura tão humilde para ninguém menos que o próprio Frederico, o Grande, ali, ao lado de seus animais de estimação. As batatas devem-se ao fato de que Frederico II foi quem trouxe o plantio desse legume para a Alemanha, então Prússia. Por sua versatilidade e aspecto nutritivo, a batata se tornou item importante da alimentação europeia e germânica, inclusive nos períodos de guerra.

A modesta sepultura de Frederico, o Grande
A modesta sepultura de Frederico, o Grande

A visita ao interior do palácio é possível, mas o nosso tour guiado não contava com tempo para tanto. No entanto, é oferecido um ticket combo para o Sanssouci e o Charlottemburg em Berlim, bastando na volta de Potsdam, saltar na estação Charlottemburg.

É digno de nota que Frederico o grande mandou erguer réplica do Fórum Romano nos jardins do Sanssouci, no alto de uma colina. O local, por isto, chama-se Ruinenberg. De um dos pátios do palácio avistamos as ruínas reproduzidas. Também devido ao cronograma da excursão, não foi possível caminhar até lá, mas a visão de longe (cerca de 300 metros) já impressiona.

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Ruinenberg ao fundo
Ruinenberg ao fundo

As propriedades em Potsdam serviram de residência da família imperial ainda sob o reinado de Frederico Guilherme IV e Guilherme II, até o fim da dinastia dos Hohenzollern, em 1918. Uma curiosidade: os reis prussianos chamavam-se ou Frederico, ou Guilherme, ou Frederico Guilherme.

Frederico, o Grande
Frederico, o Grande

Um terceiro palácio, o Cecilienhof, é atração imperdível de Potsdam. Segundo a nossa guia, naquele dia a ponte que permite o acesso ao local estaria em manutenção, inviabilizando a passagem do ônibus. Foi uma pena, pois a gente contava que se sentaria no mesmo banquinho onde Winston Churchill, Stalin e Truman posaram em 1945 para a famosa fotografia tirada quando da Conferência de Potsdam, na qual definiu-se o futuro do mundo e da Alemanha pós-II-guerra. O Cecilienhof foi construído entre 1914 e 1917 pelo Kaiser Guilherme II como presente para seu filho Cronprinz Guilherme e sua nora Cecília de Mecklenburg-Schwerin.

A excursão seguiu para a Glienicker Brücke, ponte onde foi gravada a cena final do filme Ponte dos Espiões. Esta ponte liga o bairro de Wannsee, em Berlim, com a cidade de Potsdam, cortando o rio Havel, e existe tal como a vemos hoje, desde 1907. Foi destruída pela Guerra, mas reerguida com a mesma configuração. O local já servia de passagem entre as duas cidades pelo menos desde o século XVII, contando com pontes elevadiças de madeira. No pós-guerra, a ponte fazia a divisão entre os setores americano e russo da Alemanha fatiada: o lado Potsdam pertencia aos soviéticos e o lado Berlinense, aos americanos. Durante o acirramento da Guerra Fria, na década de 1950, o trânsito de civis foi impedido, e o local efetivamente testemunhou a troca de reféns entre os dois lados, daí surgindo o mito da “ponte dos espiões.”

Glienicker Brücke
Glienicker Brücke

O tour seguiu pela cidade, deixando os interessados em algum lugar específico. Descemos no centro da cidade, próximos ao Portão de Brandemburgo de Potsdam (sim, Potsdam tem o seu portão de Brandemburgo!), onde havia uma feirinha de Natal. Fazia, naquele cair da tarde, -2 graus, dois graus negativos! Neste dia senti frio nos pés, pois estava calçada com uma botinha normal, e não com minha bota forrada de pelo de carneiro (sintético, claro).

Portão de Brandemburgo de Potsdam
Portão de Brandemburgo de Potsdam

Para esquentar, entramos no Café Alice, que fica na Lindenstrasse n° 16, transversal à Brandenburger Strasse. É um estabelecimento bem com cara de casa de mãe, com cadeiras forradas em lilás e paredes claras. Pedi uma sopa de ervilha, que supus, pelo ótimo preço (5 euros), seria uma pequena porção de caldo. Mas ao ser servida em minha mesa por uma cordial atendente, fiquei surpresa com o cuidado e capricho na montagem do prato: uma sopa bem servida, com ervilhas e pedacinhos de linguiça, acompanhada de duas generosas fatias de pão. Achei incrível o sabor e adorei tomar ali essa sopa tão boa naquele salão com decoração em tons lilases, tão aconchegante e limpo.

"O Melhor Cachorro-Quente de Potsdam"
“O Melhor Cachorro-Quente de Potsdam”
O menu do Melhor Hot Dog de Potsdam
O menu do Melhor Hot Dog de Potsdam

Mas como estávamos com bastante fome, ainda fomos prestigiar aquele que se autointitula como o “melhor cachorro-quente de Potsdam”, que fica na Brandenburgerstrasse, n° 67. Na verdade comemos tantos hot-dogs gostosos durante esta viagem germânica, que fica difícil dizer qual foi o melhor. Neste estabelecimento, notamos que crianças chegando da escola e trabalhadores chegando do trabalho, comiam ali. Com bebida, desembolsamos 7 euros ao todo nesse lanche.

Brandenburgerstrasse, Potsdam
Brandenburgerstrasse, Potsdam
Brandenburgerstrasse, Potsdam, “Lojinhas de Natal”
Brandenburgerstrasse, Potsdam
Brandenburgerstrasse, Potsdam

Perto dali, pegamos um tram (mistura de trem, ônibus e bonde) que nos levou até a Hauptbanhof de Potsdam para pegarmos o trem a Berlim.

Saltamos na estação Zoo e caminhamos até a Kantstrasse, e depois até a praça Breitscheidplatz, entre a avenida Ku’damm e a rua Budapester Straße onde fica a Kaiser Guilherme Memorial Church ou Gedächtniskirche, a Igreja Quebrada. São os escombros da igreja bombardeada em novembro de 1943, mantidos assim propositalmente para que os horrores da guerra não fossem esquecidos. É possível visitar o interior das ruínas, onde ainda há mosaicos preservados, com entrada gratuita. A igreja foi construída no final do século XIX por Guilherme II, em homenagem ao avô, Guilherme I. Anexa à ruína, foi construída uma igreja moderna, em formato hexagonal e com tijolos de vidro azul que filtram uma luz muito bonita.

Gedächtniskirche, a Igreja Quebrada

Infelizmente, 15 dias depois de nossa visita a praça Breitscheidplatz, que tinha ali instalada um mercadinho de natal, seria alvo de um atentado terrorista.

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Na Tauentzienstraße, um prolongamento da Kurfurstendamm, fica a KaDeWe, apelido da Kaufhaus des Westens, espécie de galeria de compras com 6 andares, onde há de todas as marcas de luxo e ainda delikatessen e restaurante. Estilo Galeria Lafayette de Paris. Nosso orçamento não nos permitiu comprar mais que uns chocolates.

De lá, caminhamos até o Europa Center, espécie de shopping em estilo meio retrô, meio final da década de 70, que foi locação do filme Christiane F. Os corredores estão do mesmo jeito que no filme, e dá vontade de sair correndo por eles como a própria personagem – mas claro, sem vandalismo! No seu terraço continua a girar o símbolo iluminado da Mercedes Benz.

Mercado de Natal e Europa Center ao fundo
Mercado de Natal e Europa Center ao fundo

Jantamos por fim no Ristorante Allegro, um italiano no Europa Center, onde pedimos um risotto e um schnitzel, que estavam muito bons. Com bebidas, o jantar saiu a 35 euros, para duas pessoas.

Ristorante Allegro, Europa Center
Ristorante Allegro, Europa Center
Europa Center
Europa Center

A volta para o hotel foi uma verdadeira via sacra porque nos perdemos no extenso metrô de Berlim. Para completar, esquecemos uma sacola de lembrancinhas no banco da estação Zoo. Fizemos baldeação em uma estação bem estranha, que parecia em reforma, mas por sorte um berlinense solícito, com ares de estudante, percebeu nosso jeito de turista e já foi nos abordando em inglês mesmo, oferecendo ajuda. Aí constatamos que estávamos no lugar certo, e que era só esperar o próximo trem até nosso destino, Alexanderplatz.

Por Letícia com texto e publicação de Cristiano, do casal de mineiros de Belo Horizonte, que acredita que viajar é um jeito divertido de conhecer outras culturas, com muita fotografia, mapas riscados, planos feitos, além de vários contos e diários conquistados e compartilhados.

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