Um dia no Castelo de Praga

Praga, 27 de novembro de 2016.

Após um farto café da manhã no hotel Ibis Old town, no qual até feijões havia, saímos para começar a jornada desse dia dedicado ao Distrito do Castelo de Praga (Hradcany), que fica do ouro lado da Ponte Carlos, no bairro de Malá Strana.

Praga

Antes, passamos pelo bairro judeu “Josefov”, que fica bem perto da Praça da Cidade Velha, bastando entrecortar uma e outra rua, se perdendo pela cidade. Em Josefov há um complexo de sinagogas que o visitante pode conhecer mediante pagamento de ingresso único, ao custo, na época em que visitamos, de 300 Coroas. Essas sinagogas hoje em dia exibem peças de uso doméstico, religioso, festivo e do vestuário do povo judeu, formando um comovente museu. Em uma delas há inclusive desenhos feitos por crianças judias durante o período do holocausto, enquanto enclausuradas nos campos de concentração. (Aqui cabe um parêntese: sobre esse tema e essa época, e a fim de conhecer melhor os usos, costumes, origem e história do povo Tcheco, recomendamos fortemente a leitura do livro Inverno de Praga, de autoria da ex-Secretária de Estado dos Estados Unidos Madeleine Albright.)

Velho Cemitério Judeu

Mas o que mais chama a atenção e rende fotos ozziousbornianas é o Velho Cemitério Judeu, também compreendido no complexo de sinagogas. Consiste em um amontoado natural de lápides em um espaço murado, revelando uma sobreposição arrepiante de sepultamentos que vieram sendo operados desde o século XV.

Estima-se que cerca de 200 mil sepultamentos tenham sido realizados naquele espaço – o último, datado de 1787.

Sinagoga – ao lado do Cemitério Judeu

As lápides, com desenhos que indicam o ofício do morto e escritos em hebraico, estão cobertas do verde musgo do lodo acumulado ao longo dos séculos, completando o ar pitoresco do local. Mas, ao invés de causar medo ou pavor, o local hoje é a mais pura arte, e leva a reflexão de que não bastasse o confinamento do povo judeu em vida, eles ainda o foram na morte. Após essa experiência bastante reflexiva e debaixo de uma garoa fina, seguimos em direção à Ponte Mánesuv Most, paralela à Ponte Carlos. A travessia dessa ponte rende excelentes fotos da ponte mais famosa da cidade, e garante espaço para se deslocar sem a multidão que se aglomera na Carlos.

Ponte Manésuv Most

Ao chegar à outra extremidade do rio Moldava (Vltava), estamos no bairro de Malá Strana. Fomos recepcionados por um grupo festivo de cisnes das mais variadas cores e espécies, que com bastante algazarra se alimentam de pedaços de pão dados pelos turistas e em seguida põem-se a nadar como num lindo balé. Impossível não deter-se por pelo menos dez minutos nessa cena.

A Ponte Carlos e seu cortejo de cisnes
A Ponte Carlos e seu cortejo de cisnes
Praga – Rio Moldava

Bairro adentro, o caminho que leva ao Castelo de Praga é quase que intuitivo. Pode-se pegar o Tram n° 22, espécie de bonde que sobe ladeira acima. O Distrito do Castelo fica sim no alto de um morro, parte bem alta da cidade e de onde pode-se fazer fotos dos conhecidos telhados cor de tijolo da cidade. Decidimos fazer a subida a pé (cerca de 1 km), para ir apreciando melhor as ruas e ruelas. Antes, compramos um delicioso Trdelnik, espécie de rosca comum na região da Bohemia que é assada em um rolo de madeira e coberta de açúcar cristal, canela e outras especiarias. A massa tão fina e macia é um deleite para o paladar.

No caminho, passamos pelo museu Franz Kafka, que fica na rua Cihelná, mas não entramos. Tomamos a rua Nerudova, onde há restaurantes, confeitarias e lojas de artesanato típico e de cristais da Bohemia. O fim da rua Nerudova desemboca em curva fechada à direita na pequena rua Ke Hradu, em cujo final há uma Starbucks Café com mirante voltado para a cidade. A Ke Hradu conduz enfim à ampla esplanada onde formava-se naquele dia tão frio e sob chuviscos uma grande fila para os procedimentos de segurança (detector de metais e revista de bolsas) para entrada no Complexo do Castelo de Praga.

Trata-se de não da visitação de um único castelo ou palácio, mas de um grupo de construções históricas compreendidas em 3 combos de ingressos, com acesso mais completos ou não, à escolha do visitante. Ali fica também o Palácio de despachos do Presidente da República Tcheca, havendo todos os dias, ao meio-dia, a marcha de troca da guarda devidamente paramentada. Na verdade, a guarda se reveza de hora em hora, mas somente ao meio-dia é que isso é feito com fanfarra e hasteamento de bandeira.

Castelo de Praga - Palácio Presidencial
Castelo de Praga – Palácio Presidencial

Superada a revista pelos guardas tchecos, nos dirigimos ao guichê para compra dos ingressos. Optamos pelo ticket mais completo, ao custo de 350 Coroas, que inclui o Palácio Real Antigo, a Catedral de São Vito, a Basílica de São Jorge, a Torre da Pólvora, a Viela Dourada, o Palácio Rosenberg e a Torre Daliborka.

Começamos a exploração pelo Palácio Real Antigo, cuja construção iniciou-se no século IX por iniciativa de um príncipe da dinastia Premslyd, chamado Borivoj. À época, trata-se de uma fortaleza de madeira. Ao longo dos séculos, foram sendo erguidos anexos e mais anexos, bem como estilizado o palácio ao costume de cada governante. O que vemos hoje é uma mescla de vários estilos. Destaque para as salas que contêm brasões pintados nas paredes e teto, como a Antiga Sala dos Registros de Terras. Os tais brasões eram dos funcionários responsáveis por registrar terras e atos normativos dos governantes.

Catedral de São Vito
Catedral de São Vito

Devemos lembrar que Praga já foi a sede do Sacro Império Romano Germânico, durante o reinado de Carlos IV, que ascendeu ao trono em 1333, tendo a cidade grande importância no panorama histórico mundial. Na sala da Dieta, uma espécie de parlamento, pode-se ver os retratos de Maria Teresa da Áustria, seu marido Francisco José II, Leopoldo II e o célebre Francisco I, pai de nossa imperatriz Leopoldina, último sacro imperador romano-germânico, que enfrentou Napoleão Bonaparte em Austerlitz.

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No século XV, iniciou-se a longeva animosidade entre alemães católicos e tchecos protestantes, em idas e vindas pela disputa do poder central. Um episódio famoso dessa querela é a Defenestração de Praga, que teve lugar ali mesmo, numa das salas do Palácio Antigo, na sala da Chancelaria Boêmia:

nobres protestantes atiraram dois governantes católicos e um secretário de uma das janelas da ala leste, e esses sobreviveram à queda porque caíram sobre um fofo monte de estrume. Atribuíram a salvação à interseção de um anjo.

Castelo de Praga - antigas instalações
Castelo de Praga – antigas instalações

Após a visita ao Palácio Antigo, voltamos ao pátio central e visitamos a imponente Catedral de São Vito, cuja construção, em estilo gótico, durou de 1344 a 1929. Percorremos o seu interior, mas não descemos na cripta, onde estão os restos mortais de muitos governantes boêmios, entre eles, Carlos IV e Venceslau IV, nem visitamos a câmara onde ficam guardadas as joias da coroa. Observamos os vitrais magníficos e vimos o rebuscado túmulo de São João Nepomuceno.

 

Aproveitamos que havia um mercado de natal funcionando no pátio posterior à Catedral e ali mesmo almoçamos deliciosos bratwursts com refrigerantes, ao custo de 200 Coroas (8 euros). No meio desse pátio, visitamos a Basílica de São Jorge, erguida no século X. logo ao lado, adentramos a parte final do passeio, para visitar a Viela Dourada, ou Golden Lane. Trata-se de uma ruela com cerca de 100 metros de extensão, ladeando o muro do Castelo, onde há várias casinhas que em tempos antigos pertenciam a uma corporação de ourives ali estabelecidos estrategicamente para fins de obtenção de vantagens fiscais. Hoje, algumas das casinhas são lojas, livrarias, outras estão caracterizadas com mobília em réplica de como eram essas habitações nos tempos mais remotos.

Casa Nº 22 – Franz Kafka

A casa de n° 22, pintada de azul, é famosa por ter servido de residência ao escritor Franz Kafka, e a de n° 12 abrigou Joseph Kazda, um grande colecionador de filmes que, durante a 2ª Guerra Mundial, teve importante papel na guarda e conservação de cópias de produções nacionais. Um dos endereços onde colocar a salvo as fitas eram justamente o da Golden Lane 12.

Na extremidade superior da Viela Dourada fica a Torre da Pólvora, que é um pequeno museu de armaduras e armamentos, bem como instrumentos de tortura. Há também escudos pintados com brasões. Na extremidade final da Viela Dourada, fica a Torre Daliborka, que leva o nome de Dalibor, o primeiro prisioneiro a ser mantido ali. Essa torre contém alguns instrumento de tortura, como uma espécie de gaiola com o formato do corpo humano, onde o prisioneiro deveria ficar pendurado até definhar. Macabro! Nesse ponto, há um mirante com belíssima vista da cidade e, junto dele, está a velha escadaria do castelo, que é uma rua com escadas por onde descemos de volta à cidade baixa.

Os famosos telhados vermelhos da cidade
Os famosos telhados vermelhos da cidade

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Vista do Castelo de Praga ao fundo
Praga, vista do lado de Malá Strana

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Caminhamos mais um pouco por Malá Strana e atravessamos a Ponte Carlos, invariavelmente lotada de turistas. Pegamos a avenida à direita da ponte (av. Marasykovo), que fomos percorrendo na margem do rio Moldava por cerca de 1 km, até avistarmos a famosa Casa Dançante / Dancing House, na esquina com rua Resslova. É uma construção moderna, dos anos 90, composta por dois edifícios de escritórios acoplados um ao outro, com forma sugestiva de um casal dançando. Essa arquitetura é uma homenagem a Fred Astaire e Ginger Rogers, parceiros famosos no cinema por sua dança. Muito bonita de ser ver à noite, iluminada.

Casa Dançante - Dancing House
Casa Dançante – Dancing House

Dadas as dificuldades em se comprar o bilhete do metrô na estação mais próxima, seguimos a pé para a Narodni Trida, endereço do shopping center OC Quadrio e local onde, numa das portas desse shopping, fica o Franz Kakfa Monument ou Socha Franze Kafky. É um monumento moderno e animado, em que faixas prateadas vão girando e mostrando a face do escritor, como se esta estivesse em fatias que em determinado momento formam o conjunto. Muito interessante.

Franz Kakfa Monument ou Socha Franze Kafky

De lá, como nossas pernas já não podiam mais, pegamos a linha B amarela do metrô até a estação Republiky e fomos jantar no Pizza Coloseum, uma pizzaria à moda italiana quase em frente ao nosso hotel Ibis. Gastamos 15 euros o casal, com bebidas (pagamos via cartão pré-pago Confidence, então a cobrança foi em euros e não Coroas).

Metrô
Metrô
Metrô

No dia seguinte, seguiríamos para Berlim.

Por Letícia com texto e publicação de Cristiano, do casal de mineiros de Belo Horizonte, que acredita que viajar é um jeito divertido de conhecer outras culturas, com muita fotografia, mapas riscados, planos feitos, além de vários contos e diários conquistados e compartilhados.

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